sexta-feira, abril 29, 2005

em busca de um raio de sol

numa soma de palavras
por muitas eternidades
tantas como versos
por escrever

cruel o encontro
de um tempo frágil
desprezado pela curiosidade

abandono recusado
num estado de loucura

dois22.jpg

certezas pintadas
em melodias
atravessadas pela noite
bordadas de emoção

um rigor altivo
com autenticidade
na solidez exacerbada
de um credo

um tu e um eu
banhados em raios de luz


l.maltez

segunda-feira, abril 25, 2005

no fulgor da tristeza a força da memória deu alma ao corpo

mulher12.jpg


nada me ocorre dizer
perdida na sombra
busquei um rosto
uma imagem
até uma mão
tua
estranho vazio
procurei uma saída
indiferente ao fascínio
e à vida


l.maltez

domingo, abril 24, 2005

a minha paleta de cores onde a realidade tem palavras pintadas por mim

linda.jpg

tirei a pétala branca
ao malmequer amarelo
pintei um sol verde
num céu dourado
onde nasce uma lua
envolta num véu prata
o mar ondulou
em espuma azul
onde os peixes tangerina
bailam
ao som das estrelas
e eu...
gostava de me chamar van Gogh


l.maltez

terça-feira, março 22, 2005

escuto o cantar do vento





louco o vento
no sopro vibrante da melodia


cantou agitado
bailou nas folhas outonais


sóbrio
impertinente
flutuou nos sonhos


despertou preguiçoso
no jejum do dia
saudando a branca manhã


sem peso renova-se
sem medos, sem sustos
sopra no coração

poderoso e livre
torna a doce brisa amarga


engana de frente ou pelas costas
em gritos esfumados
arrasa cruel sem se deter


quebra pela força
a beleza da vida presente



l.maltez

segunda-feira, março 21, 2005

21 de Março - por ser hoje o dia mundial da poesia, foi de ti que me lembrei com uma grande saudade

torreira9vn.jpg

Mar


Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.


E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.


Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, março 20, 2005

é em ti venho ver o que jamais se viu

gaivota.JPG


bebi-te mar
embriaguei-me de maresia.


neste corpo, a ondulação
da tua cor rara


alcancei-te sorrindo,
no soltar do dia
afixei-te na alma


a espuma rebenta
em ondas de prazer
.
queria bailar como as gaivotas



l.maltez

mergulho secretamente no segredo da existência

deep.JPG


existo
nas vozes frias

na verdade escangalhada no cruzamento de linhas

nas mãos disponíveis

nos rostos recolhidos das noites

existo

num canto inacessível

entre labirintos perigosos

nos ruídos da cidade

existo

num papel molestado e cru



l.maltez

sábado, março 12, 2005

sem me desfazer procuro escutar o silêncio

caminhando12.JPG

chego em silêncio
sinto o sol nas veias.


uma brisa lava o meu rosto
tenho sede de mar.


deito-me na areia
naquela frescura azul.


caminho em palavras
ligada ao mar e ao sol.


o dia é um vazio entre os espaços
fico indecisa e ardente.


sinto-me perdida entre os ventos
ouço vozes na penumbra desse vazio.


sei o que amo
e amo num abandono total.


sou alguém que espera,
a que pergunta e responde.


uma esperança impossível,


a que caminha no repouso
do seu próprio silêncio.
o meu.



l.maltez

quinta-feira, março 10, 2005

em silêncio entro no sonho

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busquei
a felicidade perdida


descobria-a escondida
na perturbação da noite


senti um arrepio
na pele fria e luminosa


busquei um lugar
onde se vive sem dor
na claridade dum mar
num horizonte com estrelas


sim,
onde o silêncio fosse a saudade dos sonhos


por fim retirei-me


fui amada
e odiada
na fatalidade dos dias


e esquecida
na força da vida



l.maltez

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

guardo na alma com clareza o sonho

perdida em sonhos

deixa o meu sonho espraiar-se
e senta-te um pouco a meu lado

deixa que adormeça no teu abraço
quando a noite avançar.

persistirei a olhar para ti
mesmo perdida em sonhos

dormindo ou acordada
serás constantemente o meu abrigo

vejo no teu olhar o horizonte
vejo o mar imenso,
solitário

sinto uma dor quase letal
e temo o silêncio duma culpa.

procuro a tua boca
os teus beijos e carícias

esta cama chama por ti
para nos reinventar num só



l.maltez

terça-feira, fevereiro 08, 2005

perdido no sussurrar das suas mãos

no murmúrio de um dia cheio de rostos

morrer lentamente
encostado às manhãs frias


com cheiro pestífero de corpos humedecidos
pelos fumos das noites ardidas


os ruídos entram pelas frinchas
e raspam as paredes macilentas
do quarto tíbio


sinuosas sombras bailam no silêncio
alteradas pelo ensejo


só, assumidamente
parei na fria manhã de qualquer lugar
expulsa de saudades


o rapaz que atravessa a rua
ausente das horas leves
mergulha no tempo vazio, sem nexo
como se carregasse o peso do dia


a respiração arrasta-se
pelas esquinas
num regresso ao isolamento


uma voz embalada enegrece na manhã



l.maltez

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

segunda-feira, janeiro 31, 2005

no balouçar da melancolia encontrou o homem a certeza para um voo frenético

entre abraços na sombra das paredes dorme o mar da cidade

a cidade cresceu nas ruas perpendiculares,
nítida
de horas encontradas


dentro de sons
encolhidos na magia da noite


na solidão o homem sonegou as palavras
amontoadas


desceu fantasiando os passos até
chegar ao último degrau da
cidade


de olhar ácido, explorou hesitante
os barulhos do dia


ventos, o restolhar das folhas
gemidos secos, disfarçados


frequentemente, corre sobre si
cansado do canto passado


pérfido na justiça,
remarcado sobre a ausência
dos caminhos de sombra


na cidade, ao fundo
o mar
em projectos quebrados


o homem envelhece duma idade
sem sinais
seduzido pelo mar


sente correr
a suja cidade
resvalando no corpo


a noite toca, violento
despede-se.


l.maltez

sábado, janeiro 22, 2005

sacudi as mãos da poeira do tempo

tenho as mãos impregnadas
do teu perfume

perdi-me de ti,
numa manhã esquecida

piso as ruas atravessadas
ténue nos meus passos

no corpo, fica a saudade
em cada poro

juntei os sonhos
que ficaram calados
nas madrugadas dissolvidas

as horas, essas correm nos dias
onde as cores são proibidas

grito segredos terríveis ao vento,
cansando o corpo
que se desfaz

no leito repousam as desilusões

onde estás?

sinto-te dentro de mim
mas muito longe de ti


l.maltez
é possível construir com as mãos a perfeição?

domingo, janeiro 16, 2005

  abril desfolhado a tela já não é sinfonia nem as aves gritam como qualquer papoila num campo distante não há forças para sonhar ...